Coenzima Q10
e a função reprodutiva
A infertilidade feminina e masculina está associada a diversos fatores que envolvem genética, ambiente, estilo de vida e nutrição. Diante da complexidade de suas causas e da variabilidade da resposta aos tratamentos, cresce o interesse por estratégias adjuvantes que possam contribuir para a qualidade dos gametas e os desfechos reprodutivos.
Entre elas, a coenzima Q10 (CoQ10) é amplamente investigada em contextos da infertilidade. Estudos clínicos avaliaram seu potencial na baixa reserva ovariana, resposta ovariana reduzida e em alterações seminais, com resultados favoráveis em parâmetros reprodutivos.
Mecanismos envolvidos
A CoQ10 tem papel central na cadeia respiratória mitocondrial, participando do transporte de elétrons e da fosforilação oxidativa, responsável pela produção de ATP. Esse processo é importante para a função reprodutiva, já que o desenvolvimento e a atividade dos gametas dependem de adequado fornecimento energético. Nos oócitos, por exemplo, a energia produzida pelas mitocôndrias participa de etapas como maturação, fertilização e desenvolvimento embrionário inicial. Alterações na função mitocondrial podem reduzir a produção de ATP e comprometer esses processos.
Além disso, a CoQ10 exerce atividade antioxidante, atuando na redução da peroxidação lipídica e da oxidação do DNA. O excesso de espécies reativas de oxigênio (EROs) promove danos celulares nos ambientes ovariano e seminal. Nos espermatozoides, níveis adequados de CoQ10 têm sido relacionados à proteção antioxidante e à motilidade; nos oócitos, a manutenção do equilíbrio redox e da função mitocondrial pode contribuir para preservar a competência celular e o desenvolvimento embrionário.
Dessa forma, os principais mecanismos propostos para a atuação da CoQ10 na fertilidade envolvem dois eixos complementares: o suporte à produção de energia mitocondrial e a proteção contra o estresse oxidativo.
Fertilidade feminina
Na fertilidade feminina, a qualidade oocitária e a resposta ovariana são determinantes importantes para o sucesso reprodutivo, especialmente em situações de baixa reserva ovariana (BRO) ou em contextos de técnicas de reprodução assistida. Alterações na função mitocondrial e o aumento do estresse oxidativo estão associados à redução da competência dos oócitos e ao comprometimento da fertilização e do desenvolvimento do embrião.
Em um estudo prospectivo, randomizado e controlado, 169 mulheres (<35 anos e com BRO - grupo 3 do POSEIDON) receberam (ou não) 200mg de CoQ10 3x/dia durante 60 dias antes do ciclo de FIV/ICSI (fertilização in vitro ou injeção intracitoplasmática de espermatozoide). O pré-tratamento com CoQ10 resultou em necessidades significativamente menores de gonadotrofinas e níveis de pico de estradiol mais elevados.
O número de oócitos recuperados, a taxa de fertilização e o número de embriões de alta qualidade também foram significativamente maiores nessas mulheres. Ainda houve menor proporção de transferências canceladas por ausência de embriões viáveis e maior disponibilidade de embriões criopreservados.
¹Ciclos cancelados: inclui mulheres que não responderam à estimulação e não foram submetidas à coleta de oócitos. ²Taxa de fertilização: calculada pelo número total de embriões com dois pró-núcleos (2PN) dividido pelo número total de oócitos inseminados. E2 = estradiol; hCG = gonadotrofina coriônica humana; ICSI = injeção intracitoplasmática de espermatozoides; IIQ = intervalo interquartil; DP = desvio-padrão; 2PN = dois pró-núcleos (Xu et al., 2018).
Com relação a gestações, os desfechos foram:
- Grupo CoQ10: 23 gestações clínicas após transferência de embriões frescos e 1 gestação adicional após transferência de embriões congelados;
- Grupo controle: 16 gestações clínicas após transferência de embriões frescos e 0 gestações após a transferência de embriões congelados;
- Não houve gestações espontâneas em nenhum dos grupos.
As taxas de gestação clínica e de nascimento de bebês vivos por ciclo de transferência de embriões frescos foram de 34,85% e 31,82% em mulheres tratadas com CoQ10, e de 25% e 21,88% no grupo controle, respectivamente.
Em resumo, os pesquisadores pontuam que o pré-tratamento com a CoQ10 resultou em:
- diminuição significativa da quantidade total de gonadotrofina necessária para alcançar a resposta ovariana;
- menor duração da estimulação;
- níveis de pico de estradiol mais elevados;
- maior número de oócitos recuperados;
- aumento na taxa de fertilização;
- maior número de embriões de alta qualidade;
- menor taxa de ciclos cancelados devido à ausência de resposta à estimulação.
Em consonância, as concentrações de CoQ10 no fluido folicular (FF) foram investigadas em 60 mulheres inférteis submetidas à ICSI. O oócito completa seu processo de maturação no FF, de modo que as características bioquímicas do FF podem interferir na qualidade do oócito e do embrião subsequente. Os níveis da coenzima foram significativamente maiores nos folículos associados aos embriões de graus A e B em comparação aos de graus C e D, além de serem superiores entre as mulheres que engravidaram. A área sob a curva (AUC) da CoQ10 para predição de gravidez foi de 0,677 (p =0,022, IC95% 0,53–0,81).
Ou seja, parece haver relação entre os níveis de coenzima Q10 no fluido folicular, os parâmetros morfocinéticos embrionários ideais e as taxas de gravidez. Níveis mais elevados de CoQ10 no FF estão relacionados a melhores classificações embrionárias e taxas de gravidez mais altas.
A infertilidade é altamente prevalente em mulheres com Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP, antiga SOP), e algumas razões envolvem o estresse oxidativo e a disfunção mitocondrial. Nesse cenário, um ensaio randomizado feito com 149 mulheres com SOMP suplementou 120mg de CoQ10 + citrato de clomifeno (medicamento amplamente utilizado para induzir a ovulação) ou apenas o medicamento (grupo controle) com o objetivo de induzir a ovulação.
A Combinação CoQ10 + clomifeno foi associada à maior proporção de ovulação (70% versus 19%; p<0,001) e à maior taxa de concepção por ciclo (48,6% versus 6,3%; p<0,001), além de maior espessura endometrial e maior número de folículos ≥18mm. As mulheres que receberam a combinação tiveram seis vezes mais chances de engravidar do que as mulheres que receberam apenas citrato de clomifeno (OR ajustada = 6,344, IC95% 1,452–27,71, p=0,014).
Fertilidade masculina
Já na fertilidade masculina, o estresse oxidativo e a função mitocondrial estão diretamente relacionados à qualidade espermática. Os espermatozoides dependem da produção adequada de energia para manter sua motilidade, além de serem suscetíveis a danos oxidativos que podem comprometer membranas e estruturas celulares. A ciência destaca que CoQ10 e ubiquinol (sua forma reduzida) estão presentes no plasma seminal e nos espermatozoides, reforçando um possível papel da coenzima no contexto reprodutivo.
Um ensaio clínico randomizado e controlado avaliou a eficácia do tratamento com coenzima Q10 na melhoria da qualidade do sêmen em 55 homens com infertilidade idiopática (idade 27-39 anos). Os critérios de infertilidade foram concentração espermática >20×10⁶/mL, motilidade progressiva dos espermatozoides <50% e morfologia normal dos espermatozoides >30%. Durante 6 meses, eles receberam 200mg/dia de CoQ10 ou placebo.
Os níveis de CoQ10 aumentaram significativamente no plasma seminal (61,29 ± 20,24ng/mL para 99,39 ± 31,51ng/mL; p<0,0001) e nos espermatozoides (de 2,44 ± 0,97 ng/10⁶ células para 4,57 ± 2,46 ng/10⁶ células; p<0,0001) após o tratamento. Nenhuma alteração estatisticamente significativa foi encontrada no grupo placebo.
Houve melhora na motilidade total dos espermatozoides (de 33,14% ± 7,12% para 39,41% ± 6,80%; p<0,0001) e na motilidade progressiva (de 10,43% ± 3,52% para 15,11% ± 7,34%; p=0,0003) após 6 meses de CoQ10. Pacientes com valores basais mais baixos de motilidade de coenzima Q10 apresentaram maior probabilidade de responder ao tratamento.
Com relação a gestações:
- foram obtidas nove gestações espontâneas no total;
- seis gestações foram de parceiras de homens que receberam CoQ10;
- três gestações foram de parceiras de homens que receberam placebo.
Resultados sobre parâmetros seminais e desfechos reprodutivos também foram avaliados em um estudo aberto prospectivo feito com 287 homens inférteis (diagnosticados de acordo com os critérios da OMS) com oligoasteno-teratozoospermia idiopática (OAT). Os participantes receberam 300mg de CoQ10 2x/dia durante 12 meses, com acompanhamento por mais 12 meses após o fim do tratamento.
A concentração média de espermatozoides, a motilidade progressiva dos espermatozoides e a proporção de espermatozoides com morfologia normal aumentaram significativamente após 12 meses de terapia com CoQ10, em 113,7%, 104,8% e 78,9%, respectivamente (todos p<0,05). A taxa geral de gravidez foi de 34,1%, ocorrendo em um período médio de 8,4 ± 4,7 meses. A concentração espermática, a duração da suplementação de CoQ10 e a idade da mulher foram significativamente associadas à taxa de gravidez.
Apesar de alguns parâmetros como contagem total média, motilidade e percentual de espermatozoides tenderem à piora após a suspensão da CoQ10, seus níveis ainda continuavam significativamente superiores aos basais.
Limitações e considerações para a prática clínica
Os resultados das pesquisas e os estudos mecanísticos apontam para um potencial efeito benéfico da suplementação de coenzima Q10 na infertilidade masculina e feminina. Contudo, é importante pontuar que ainda há heterogeneidade com relação às populações estudadas, aos protocolos de suplementação, à duração das intervenções e aos desfechos avaliados. Tudo isso dificulta a definição de uma conduta única e reforça a importância do olhar individualizado e do tratamento voltado às necessidades de cada paciente.
Além disso, alguns estudos utilizam períodos relativamente curtos de suplementação e avaliam principalmente desfechos intermediários, como número e qualidade de oócitos e embriões ou parâmetros seminais. A melhora desses marcadores não necessariamente se traduziu em maior probabilidade de gravidez.
Dessa forma, a CoQ10 pode ser integrada na prática clínica como uma estratégia adjuvante, cuja utilização deve levar em consideração a etiologia da infertilidade, o perfil do paciente e os objetivos terapêuticos, dentro de uma abordagem individualizada de investigação e manejo da saúde reprodutiva.
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