Fadiga mental e
performance esportiva
Acesso rápido
Percepção subjetiva de esforço (PSE)
Tomada de decisão, precisão e desempenho técnico
Mecanismos
Fatores associados à fadiga mental em atletas
Estratégias para modular a fadiga mental e preservar a performance
Sono adequado
Manejo do estresse
Alimentação e suplementação
Cafeína
L-tirosina
Ferro
L-teanina
L-teanina + cafeína
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Referências
A performance esportiva costuma ser analisada a partir de fatores musculares, cardiorrespiratórios e metabólicos, como força, potência, consumo de oxigênio, disponibilidade energética e recuperação. No entanto, atenção, motivação, tomada de decisão, controle motor e percepção subjetiva de esforço também são determinantes para o desempenho físico.
Nesse contexto, a fadiga mental (FM) tem sido estudada como um fator psicobiológico capaz de interferir na forma como o atleta percebe, regula e sustenta o esforço. Ela pode ocorrer após períodos prolongados de demanda cognitiva e se manifestar por sensação de cansaço mental, menor estado de alerta, queda de motivação e alterações no desempenho cognitivo.
Por isso, na prática clínica, considerar a fadiga mental amplia a compreensão sobre quedas de rendimento que nem sempre são explicadas apenas por marcadores fisiológicos tradicionais. Essa abordagem permite integrar aspectos como sono, estresse, carga cognitiva, recuperação e estado nutricional na avaliação do atleta.
Os efeitos da fadiga mental na performance podem ser observados em diferentes dimensões, como o tempo até a exaustão, a percepção subjetiva de esforço e a capacidade de tomar decisões precisas sob demandas física e cognitiva.
Tempo até a exaustão (TTE)
De acordo com a literatura, a FM prejudica principalmente o desempenho no endurance, com redução do tempo até a exaustão e diminuição da potência ou velocidade. Por outro lado, a força máxima e o trabalho anaeróbio não parecem ser afetados de forma consistente entre os estudos.
Uma pesquisa piloto (10 homens adultos saudáveis, ~22 anos) investigou se a fadiga mental causada por esforço cognitivo prolongado poderia prejudicar a função neuromuscular e aumentar a fadiga central durante um exercício de endurance. Os participantes foram expostos à FM ou a uma condição de controle, seguidas por contração isométrica submáxima dos extensores do joelho até a exaustão.
O tempo até a exaustão foi 13% ± 4% menor na condição de fadiga mental (230 ± 22s) em comparação com a condição controle (266 ± 26s) (p<0,01). Contrariamente às hipóteses dos pesquisadores, a FM não reduziu a contração voluntária máxima, não diminuiu o nível de ativação voluntária dos músculos e não aumentou a fadiga central ou periférica causada pelo exercício. Ou seja, a fadiga mental pode reduzir o desempenho, mas esse efeito parece estar mais relacionado ao cérebro e à percepção de esforço do que a uma perda real da capacidade neuromuscular.
Esses resultados vão ao encontro de um ensaio clínico randomizado cruzado feito com 16 participantes que pedalaram até a exaustão a 80% da potência máxima após duas condições experimentais: 90 minutos de uma tarefa cognitiva exigente para induzir fadiga mental ou 90 minutos assistindo a documentários como condição controle. O TTE diminuiu significativamente na condição de FM em comparação ao grupo controle (640 ± 316s versus 754 ± 339s; p=0,003).
A redução do desempenho não foi mediada por fatores cardiorrespiratórios e musculoenergéticos, uma vez que as respostas fisiológicas ao exercício permaneceram praticamente inalteradas. Isso indica que a menor tolerância pode estar mais relacionada à forma como o esforço é percebido e regulado pelo sistema nervoso central do que a uma limitação periférica direta.
Percepção subjetiva de esforço (PSE)
Ainda no mesmo estudo, os indivíduos com FM avaliaram a percepção de esforço durante
o exercício como significativamente maior em comparação com o grupo controle (p=0,007). Como as avaliações de esforço percebido aumentaram de forma semelhante ao longo do tempo em ambas as condições (p<0,001), aqueles com FM atingiram seu nível máximo de esforço percebido e interromperam a atividade física mais cedo do que os do grupo controle.
Esses achados corroboram a teoria da motivação de Brehm, que postula que os indivíduos decidem interromper o esforço quando uma tarefa é percebida como muito difícil ou quando as demandas de esforço excedem o limite máximo do que elas estão dispostas a fazer.

Efeito do tratamento na fadiga autorrelatada. # Efeito principal significativo do tempo (p<0,05). †Interação condição × tempo significativa (p<0,05) e efeito principal simples da condição de acordo com o método de Holm-Bonferroni. Os dados são apresentados como média ± DP (Marcora; Staiano; Mannig, 2010).
A literatura sugere que a FM não necessariamente altera o “teto” de esforço percebido que o indivíduo tolera, mas antecipa sua chegada. Em outras palavras, o esforço parece aumentar mais cedo ou ser percebido como mais elevado, reduzindo a tolerância ao exercício prolongado. Uma possível explicação é que a FM altera a forma como o cérebro interpreta os sinais do corpo durante o exercício, processando a sensação como mais intensa. Outra hipótese é que a FM afeta áreas do cérebro envolvidas no controle do movimento e na percepção do esforço, como o córtex cingulado anterior (CCA), que integra funções como controle motor, emoção, cognição e regulação do esforço.
Esses efeitos na PSE podem ser dependentes do sexo. Em um ensaio clínico randomizado, controlado e cruzado, 25 ciclistas (15 mulheres; 10 homens) participaram das condições Ciclismo + Esforço Mental (EM) (exercício de resistência em ciclismo com uma tarefa Stroop de EM) e Ciclismo + Filme (exercício de resistência em ciclismo enquanto assistiam a um filme).
A PSE aumentou significativamente para os homens após 30 e para homens e mulheres após 40, 50, 60 e 70 minutos de Ciclismo + ME em comparação com Ciclismo + Filme. Além disso, PSE das mulheres, em comparação com a dos homens, foi 13%, 11%, 10% e 7% menor aos 40, 50, 60 e 70 minutos, respectivamente, durante o exercício de Ciclismo + ME.

Efeitos do Ciclismo + FM (linha contínua) e do Ciclismo + Filme (linha tracejada) na PSE (Percepção Subjetiva de Esforço) para Homens (A) e Mulheres (B). Independentemente da sessão, a PSE aumentou (p<0,05) tanto em homens quanto em mulheres. Os símbolos # e ## indicam um efeito significativo intra-sujeitos para a sessão (p<0,05). (C, D) indicam o efeito do Ciclismo + FM e do Ciclismo + Filme na PSE para homens (linha contínua) versus mulheres (linha tracejada). O símbolo $ representa uma diferença significativa (p<0,05) entre os sexos de 40 a 70 minutos apenas durante a sessão de Ciclismo + FM (Amoozi et al., 2025).
Embora a FM tenha prejudicado o desempenho, as mulheres foram impactadas em menor grau do que os homens, enfatizando a importância de considerar as diferenças entre os sexos em tarefas mentais e físicas ao realizar exercícios de resistência de longa duração.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que, em mulheres mentalmente fatigadas, o fluxo sanguíneo poderia ser maior do que nos homens, reduzindo o acúmulo de substâncias associadas à fadiga, como a adenosina, e favorecendo o uso de lactato como fonte energética cerebral. Dessa forma, elas poderiam perceber o exercício como menos intenso e sustentar o esforço por mais tempo antes de atingir a exaustão.
Tomada de decisão, precisão e desempenho técnico
Além do endurance, modalidades que dependem de alta demanda cognitiva, como futebol, basquete, boxe, tênis e esgrima, também são afetadas pela fadiga mental. Nesses esportes, o desempenho não depende só da capacidade física, mas também da habilidade de processar informações, antecipar cenários, selecionar respostas motoras e ajustar o comportamento em tempo real.
A tomada de decisão esportiva envolve a capacidade do atleta de captar informações do ambiente, interpretar o posicionamento de adversários e companheiros e escolher a ação para o contexto. Atenção, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e percepção-ação são processos envolvidos nessa resposta. Por isso, sob condição de FM, o desempenho em situações que exigem respostas rápidas, como passes, chutes, deslocamentos, finalizações e ações defensivas, pode ficar prejudicado.
No futebol, podem ocorrer decisões inadequadas, menor sincronização da equipe, redução da exploração dos espaços e prejuízos em ações ofensivas e defensivas. Também foram observados menor precisão de passes e chutes, redução da velocidade das finalizações, mais erros no controle da bola, maior perda de posse e dificuldade para criar linhas de passe.
Em outras modalidades, como o caiaque, a FM associou-se à redução da eficiência e da velocidade da remada. Na natação, à diminuição da velocidade de nado e no tênis de mesa à menor precisão. No basquete, também foi relacionada à redução do aproveitamento em lances livres e arremessos de três pontos.

Mecanismos
A ciência aponta que os efeitos da FM sobre a performance parecem estar mais relacionados à regulação central do esforço do que a limitação muscular, ou seja, a mesma carga física pode parecer mais difícil quando se está mentalmente fatigado.
Além da participação do CCA e das alterações de percepção sensorial já mencionadas, discute-se a hipótese da adenosina: o esforço cognitivo prolongado poderia favorecer seu acúmulo em áreas cerebrais relacionadas ao esforço e à motivação, reduzindo a sinalização dopaminérgica. Uma vez que a dopamina participa da motivação, recompensa e disposição para agir, essa alteração poderia aumentar a percepção de esforço e diminuir a vontade de manter a tarefa.
Dessa forma, a FM comprometeria a performance de duas formas: aumentando a sensação de que o esforço está mais difícil (“Não consigo, estou muito cansado”) e reduzindo o valor percebido da recompensa (“Não quero fazer isso, não vale a pena”).
Fatores associados à fadiga mental em atletas
A fadiga mental em atletas pode resultar da combinação entre demandas cognitivas, emocionais, físicas e nutricionais. Entre os principais fatores associados, destacam-se:
Atividades cognitivas prolongadas e exigentes:
tarefas como análise de desempenho, reuniões táticas, estudos, planejamento de prova e uso contínuo de telas podem aumentar a carga mental.
Recuperação inadequada:
sono insuficiente ou não reparador, ausência de pausas mentais e pouco descanso entre estímulos físicos e cognitivos podem comprometer vigilância, velocidade de processamento, tomada de decisão e regulação da percepção de esforço.
Carga psicológica e emocional:
pressão por resultado, ansiedade pré-competitiva, estresse, medo de errar
e expectativa de desempenho aumentam o custo mental da prática esportiva e podem interferir na motivação e na percepção de esforço.
Excesso de atividades fora do esporte:
estudo, trabalho, viagens, deslocamentos e compromissos sociais podem contribuir para a FM.
Baixa disponibilidade energética
e inadequações nutricionais:
a ingestão insuficiente de energia e de nutrientes pode comprometer tanto a performance física quanto funções relacionadas à cognição, humor, motivação e percepção de fadiga.

Estratégias para modular a fadiga mental e preservar a performance
Sono adequado
O sono é um dos principais fatores para preservar a função cognitiva e a performance esportiva. A privação de sono prejudica a recuperação física, além de levar à FM e interferir em processos envolvidos no desempenho, como atenção, vigilância, tomada de decisão, velocidade de processamento, memória, regulação emocional e PSE.
Além disso, o sono insuficiente pode modificar respostas relacionadas à fadiga, tornando
o processamento de informações mais lento, o pensamento mais rígido e dificultando
a assimilação de novas informações, além de piorar o desempenho em tarefas curtas.
Em atletas, isso pode aumentar o custo mental do treino e da competição, comprometendo o desempenho cognitivo e a capacidade de sustentação do esforço físico com precisão
e controle.

Em jogadores de basquete universitário, a extensão do sono em ~110 minutos/noite durante 5-7 semanas melhorou significativamente a precisão dos arremessos, o tempo médio de reação e o bem-estar físico e mental. Ainda, a restauração e a extensão do sono aumentaram a precisão do saque no tênis, a eficiência da virada e da pernada na natação
e o tempo até a exaustão. Tarefas de desempenho cognitivo também melhoraram, abrangendo tempos de reação, tarefas de vigilância psicomotora, estado de alerta, vigor
e humor.
Manejo do estresse
A carga psicológica persistente pode aumentar o custo cognitivo da prática esportiva
e comprometer a recuperação central. No contexto do esporte, pressão competitiva, ansiedade e expectativa de desempenho, rotina de viagens e altas cargas de treino
podem diminuir a motivação, aumentar a percepção de esforço e prejudicar a disposição.
Por isso, o manejo do estresse também é relevante
para minimizar esse impacto e manter o bem-estar
e o desempenho do atleta. Algumas estratégias são:
- evitar excesso de estímulos antes de treinos e provas;
- organizar pausas cognitivas ao longo do dia;
- preservar momentos de descanso mental;
- planejar a rotina pré-competição, evitando estímulos desnecessários;
- implementar hábitos que favoreçam a higiene do sono;
- psicoterapia, conforme necessidade;
- praticar técnicas de respiração e/ou de relaxamento, como o mindfulness.
Um ensaio clínico randomizado e controlado feito com 96 atiradores de elite examinou a relação entre as respostas fisiológicas (como o nível de cortisol salivar) e o desempenho esportivo e investigou a relevância da terapia de meditação mindfulness 6x/semana durante 4 semanas no controle da ansiedade pré-competição.
Em comparação ao grupo controle, os níveis de cortisol salivar diminuíram significativamente do pré para o pós intervenção com mindfulness (de 1,33 para 0,66; p<0,001). Uma semana após o final do experimento, os níveis ainda permaneciam abaixo
do valor pré (0,93). Também foi observado aumento significativo da pontuação média de desempenho (de 528 para 544; p<0,001), enquanto o grupo controle apresentou diminuição da pontuação.
Jogadoras de vôlei brasileiras que praticaram mindfulness após os treinos e antes de dormir durante duas semanas diminuíram significativamente o nível de fadiga mental induzida pela competição.
Dessa forma, intervenções baseadas em mindfulness podem ser eficazes para promover o desempenho e melhorar a atenção plena, a satisfação com a vida, o controle emocional e a resiliência, de acordo com uma metanálise.
Alimentação e suplementação
Uma estratégia dietética que considere alimentos e nutrientes envolvidos na homeostase cerebral é indispensável para auxiliar na cognição e contribuir para o bem-estar físico e mental e a performance dos atletas.
Os alimentos sempre são a primeira escolha para fornecer calorias, macro e micronutrientes. Contudo, apesar de um cardápio variado e adequado, nem sempre é possível atingir as recomendações de ingestão diária de nutrientes, sendo necessário utilizar suplementos.
Além disso, o uso estratégico de alguns suplementos pode ser interessante em situações pontuais em que é necessário melhor cognição e tomada de decisão, ou quando o atleta apresenta sinais de FM. Alguns dos nutrientes mais pesquisados nos últimos anos são:
Cafeína
Amplamente reconhecida como recurso ergogênico, a cafeína é uma das substâncias mais utilizadas para prevenir ou retardar as fadigas física e mental. Sua estrutura semelhante à adenosina permite ligar-se aos seus receptores e bloquear a sua ação, aumentando a concentração cerebral de dopamina. Esses efeitos melhoram o estado de alerta, o foco e a cognição e refletem também em melhor desempenho esportivo, com menor percepção de esforço e tempo de reação, além de melhor tomada de decisão.
Em ciclistas mentalmente fatigados, a suplementação de cafeína (5mg/kg) imediatamente antes de um teste contrarrelógio de ciclismo de 20km atenuou a sensação de fadiga mental em comparação à ingestão de placebo (p=0,02; d=0,70). Também houve melhora de 1,8% no tempo necessário para completar o teste (p=0,002; d=2,36) e de 4,8% na potência média (p=0,001; d=2,71) em comparação ao placebo, além de melhora nas respostas psicológicas.

Variações de desempenho dos ciclistas em relação ao TT20km realizado sob fadiga mental após a ingestão de cafeína ou placebo. *p<0,05) (Franco-Alvarenga et al., 2019).
Em outro pequeno estudo randomizado, cruzado e controlado por placebo realizado no Brasil, o consumo de cafeína (5mg/kg) melhorou em 14% o desempenho no ciclismo após a fadiga mental induzida, além de tendência de melhora no estado de humor e na redução da sensação de fadiga. Ainda, esse estudo mostrou que a cafeína parece demonstrar efeitos mais expressivos em indivíduos na condição de FM.
L-tirosina
Aminoácido não essencial que é precursor de neurotransmissores como dopamina e adrenalina, a L-tirosina foi testada em um pequeno estudo experimental publicado em 2026. Em homens ciclistas, a suplementação com 300mg/kg de tirosina (TYR) ou placebo foi administrada 60 minutos antes da manipulação cognitiva para induzir FM e aproximadamente 120 minutos antes de um teste de esforço (TTE).

Escala de percepção subjetiva de esforço (PSE) em inclinação (A) e desempenho de resistência (B). TYR: grupo de ingestão de tirosina; PLA: grupo de ingestão de placebo. Os números na figura, antes e entre parênteses, referem-se às diferenças médias entre as medidas para cada comparação realizada.
# indica um efeito principal significativo da condição (p <0,05) (Solon-Júnior et al., 2026).
A suplementação com TYR foi associada a uma melhora de aproximadamente 16% no tempo até a exaustão (diferença média: 61,2s) após a indução de FM, além de redução moderada na inclinação da PSE, sugerindo uma atenuação na percepção do acúmulo de esforço. Não foram observadas diferenças cardiorrespiratórias entre os grupos, e a TYR
não atenuou a percepção de FM induzida.
O mecanismo defendido pelos pesquisadores baseia-se na “hipótese da depleção”: a alta demanda cognitiva acelera a renovação das catecolaminas, esgotando o pool do precursor tirosina e limitando a síntese de neurotransmissores. Apoiando essa estrutura, estudos
em humanos demonstraram que a suplementação melhora o desempenho cognitivo especificamente em condições estressantes, como exposição ao frio, restrição de sono ou multitarefa exigente, que presumivelmente sobrecarregam os sistemas catecolaminérgicos.
Ferro
A literatura carece de estudos sobre o papel do ferro na fadiga mental em contexto esportivo. Contudo, a deficiência desse mineral é muito prevalente nesse público, e um dos sintomas mais comuns é a fadiga, tanto física quanto mental, que afeta diretamente o desempenho atlético.
Nesse sentido, um estudo clínico piloto não controlado feito com mulheres adultas com anemia mostrou que a suplementação com 160mg de sulfato ferroso por oito semanas diminuiu em 47% os escores de fadiga geral, em 48% a fadiga física e em 45% a fadiga mental (p<0,001), com melhora da motivação e da resistência muscular.
Os níveis de ferritina considerados adequados são constantemente debatidos nas áreas científica e clínica. Mesmo na ausência de deficiência, alguns sintomas podem estar presentes em alguns pacientes, de modo que a depender dos valores séricos (a sobrecarga também traz prejuízos), da individualidade, da sintomatologia e do histórico clínico,
a suplementação mostra bons resultados, tanto na prática clínica quanto na literatura.
Em corredores de longa distância sem deficiência de ferro (com níveis de ferritina sérica entre 30 e 100µg/L), a suplementação intravenosa de 100mg de carboximaltose férrica durante quatro semanas melhorou os escores de fadiga e de perturbação de humor.
Essas melhoras foram acompanhadas por um aumento expressivo nos níveis de ferritina (Semana 0: 62,8±21,9; semana 4: 128,1±46,6µg/L; p=0,002), mas sem melhoras no desempenho esportivo.

A) Perturbação total do humor, avaliada pela Escala de Humor de Brunel, e B) Pontuação total de fadiga, avaliada pelo Inventário Breve de Fadiga. Os dados são apresentados em sua forma bruta no eixo Y esquerdo e como variação percentual em relação à semana 0 no eixo Y direito (média ± DP). Variação dentro de um grupo em relação à semana 0: † efeito pequeno (tamanho do efeito >0,2), †† efeito moderado (tamanho do efeito >0,6); variação percentual entre grupos em relação à semana 0 no mesmo período; * p≤0,05; † efeito pequeno (tamanho do efeito >0,2), †† efeito moderado (tamanho do efeito >0,6), ††† efeito grande (tamanho do efeito >1,2); Ω denota a diferença entre os grupos na semana 0 (Woods et al., 2014).
Os efeitos da melhora dos níveis de ferro na fadiga são explicados pelo seu papel no transporte de oxigênio e na composição de hemoglobina, mioglobina e citocromos envolvidos na produção energética. A FM se deve principalmente à redução da capacidade cognitiva causada pela má oxigenação cerebral e redução da disponibilidade de ferro causadas pela sua deficiência.
Além disso, a depleção de ferro prejudica o desempenho aeróbico por diminuir o consumo máximo de oxigênio (VO2máx) em exercícios intensos. Por isso, é fundamental monitorar
os níveis desse mineral em atletas, especialmente em vegetarianos ou veganos, em mulheres ou em situações de fadiga inexplicável.
L-teanina
Aminoácido encontrado no chá verde, a L-teanina é bastante conhecida e prescrita devido aos seus efeitos ansiolíticos e antiestresse. Contudo, também há evidências de melhora das funções cognitivas. Em adultos mais velhos, a suplementação de 100mg/dia de L-teanina por 12 semanas melhorou o tempo de reação e a memória de trabalho (p<0,05), atributos que também são considerados importantes na prática esportiva.
Em concordância com esses efeitos, uma metanálise de 31 ensaios clínicos randomizados publicada em 2026 encontrou que 200mg do aminoácido ingerido antes de testes cognitivos melhora o tempo de reação de escolha [Diferença Média Padronizada (DMP): 0,51; IC95%: 0,25-0,77], indicando ganho de atenção.
L-teanina + cafeína
A combinação de L-teanina com cafeína foi testada no desempenho de arremesso e no desempenho cognitivo em atletas de curling de elite em um ensaio clínico duplo-cego, cruzado e controlado por placebo.

Em comparação ao placebo, a suplementação de 6mg/kg de cafeína combinada a 6mg/kg de L-teanina diminuiu as taxas de erro no tiro (p<0,05). Além disso, a combinação dos dois nutrientes melhorou significativamente os tempos de reação em comparação com o placebo e com a ingestão isolada de cafeína ou de L-teanina (p<0,05).

NR: reação neutra, CR: reação congruente, ICR: reação incongruente. Precisão da tarefa Stroop (ms) em diferentes condições de suplemento. *: significativamente diferente de acordo com os valores de PLA, #: significativamente diferente de acordo com os valores de CAF, Ϯ: significativamente diferente de acordo
com os valores (p<0,05) (Yilmaz et al., 2023).
De acordo com os pesquisadores, a explicação para a sinergia entre cafeína + L-teanina seria os mecanismos glutamatérgicos da L-teanina associados aos efeitos de inibição dos receptores de adenosina da cafeína, aumentando a transmissão dopaminérgica e colinérgica. Consequentemente, há melhora do desempenho cognitivo, aprimorando os processos mentais, a capacidade de tomada de decisão, o foco e o pensamento estratégico dos atletas, contribuindo significativamente para o desempenho.
Os efeitos sinérgicos desses nutrientes também já demonstraram melhorar significativamente a atenção em adultos com privação aguda de sono em estudo cruzado duplo-cego controlado por placebo.
Pesquisas feitas com ressonância magnética funcional (fMRI) sugerem que a combinação de L-teanina e cafeína melhora a discriminação entre estímulos-alvo e distratores por dois mecanismos:
- Redução da resposta cerebral aos estímulos distratores em regiões responsáveis pela atenção visual, indicando menor alocação de recursos neurais para informações irrelevantes.
- Redução da atividade da rede de modo padrão (default mode network) durante o processamento dos estímulos-alvo, uma rede cerebral associada ao devaneio mental (mind wandering).
Conclui-se que a fadiga mental é um fator relevante para a performance esportiva, pois pode aumentar a percepção de esforço, reduzir a motivação e prejudicar a tomada de decisão, mesmo sem alterações musculares ou cardiorrespiratórias importantes. Por isso, estratégias como sono adequado, manejo do estresse, controle da carga cognitiva e
suporte nutricional individualizado devem fazer parte da avaliação e do cuidado com atletas.
Este material é de apoio técnico para prescritores e
é proibida a sua divulgação para consumidores, nos termos
do item 5.14 da RDC 67/2007.
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