Eixo intestino-fígado:
um olhar além da digestão

O intestino é um órgão complexo e o seu funcionamento reflete diretamente em muitos sistemas do organismo.

O eixo intestino-cérebro, por exemplo, é muito estudado devido à sua influência na saúde mental e no funcionamento cerebral; o eixo intestino-pele, pesquisado no contexto de alergias e doenças cutâneas; e, menos explorado, há o eixo intestino-fígado.

Nesse contexto, a suplementação de pré e probióticos tem sido estudada no manejo e até mesmo na prevenção de condições hepáticas. Siga a leitura e entenda o que diz a ciência.

Intestino e fígado: interação bidirecional

O intestino e o fígado se comunicam bidirecionalmente pela circulação portal, de modo que o equilíbrio entre os dois órgãos é regulado por uma rede complexa de interações, que abrange a interação metabólica, imunológica e neuroendócrina entre eles.

A veia porta drena o sangue dos intestinos delgado e grosso, do baço e do pâncreas. Em uma situação saudável, essa drenagem pode conter quantidades insignificantes de compostos tóxicos ou patogênicos, que são combatidos e eliminados pelo fígado e seu sistema imunológico de forma eficiente.

As secreções hepáticas no intestino, contendo a bile e ácidos biliares (BA), são a outra ponta dessa comunicação bidirecional, que também influenciam no comensalismo da microbiota do intestino por conterem peptídeos antimicrobianos.

Perturbações na barreira intestinal podem afetar o funcionamento do fígado, pois permitem a passagem de grandes quantidades de substâncias potencialmente tóxicas e patogênicas para a circulação portal. Dessa forma, o fígado é sobrecarregado por antígenos, metabólitos e micróbios intestinais, desencadeando processos inflamatórios que podem agravar ou até mesmo provocar doenças.

A influência dos padrões alimentares

Nesse sentido, uma dieta rica em ultraprocessados, açúcar, gordura, aditivos alimentares
e com álcool em excesso é um gatilho potente para prejudicar a barreira intestinal e a endotoxemia, acarretando em inflamação sistêmica de baixo grau, disbiose, diminuição na produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) – especialmente butirato, alteração no metabolismo dos BAs e maior suscetibilidade à doenças hepáticas.

Por outro lado, um padrão dietético rico em fibras, antioxidantes, frutas, vegetais e com adequado consumo hídrico se mostra benéfico na manutenção da microbiota saudável
e beneficia o equilíbrio do eixo intestino-fígado.

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A dieta tem um papel crítico na função da barreira intestinal ao impactar a barreira epitelial física, a disbiose intestinal e o estresse endotóxico. À esquerda: uma dieta baseada em vegetais mantém a eubiose, o revestimento epitelial físico com uma bicamada de muco (no cólon), o controle imunológico e uma barreira vascular sanguínea intacta. À direita: por outro lado, constituintes específicos em uma dieta ocidental evocam disbiose microbiana com um metabolismo de ácido biliar alterado e prejudicam a camada de muco e a integridade epitelial. Um intestino tão permeável permite a translocação de bactérias e endotoxinas e pode prejudicar a barreira vascular intestinal, eventualmente levando à inflamação sistêmica de baixo grau. Coletivamente, uma barreira intestinal prejudicada promove a suscetibilidade à doença hepática, que pode ser neutralizada por probióticos protetores, micróbios intestinais específicos, seus metabólitos ou mediadores imunológicos derivados do hospedeiro (Tilg; Adolph; Trauner, 2022).

Suplementos probióticos e fibras prebióticas

Além da dieta, a suplementação de probióticos e de fibras prebióticas também mostra resultados expressivos na melhora das funções hepática e intestinal, tanto em animais quanto em humanos, especialmente em condições de doença preexistente.

Confira abaixo um compilado de pesquisas científicas sobre o tema.

Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA)

Um ensaio clínico randomizado administrou um probiótico multicepa (ou placebo) a 58 indivíduos com diagnóstico de Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) e doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) por 8 semanas. Como resultado, verificou-se diminuição significativa (p<0,001) no Índice de Fígado Gorduroso (FLI) (de 84,33±2,23 para 78,73±2,58), sem alterações no grupo placebo (82,57±2,45 para 81,6±2,36; p=0,367).

A rigidez hepática também diminuiu no grupo intervenção, com significância marginalmente estatística (7,16±0,2 para 6,76±0,22; p=0,052). Por fim, os valores de gama glutamil transferase (GGT) e de aspartato aminotransferase (AST) diminuíram significativamente ao final do experimento nos indivíduos que receberam probióticos (-12,0% e -12,6%, respectivamente), o que não ocorreu no grupo placebo.

Análise de resultados primários com ênfase nas mudanças do FLI. A, B: análise intragrupo das mudanças na linha de base e após a intervenção. Dados expressos em média±SEM (A) e valores individuais na linha de base e após 8 semanas de tratamento (B) (Kobyliak et al., 2018).

Ainda no contexto da DHGNA, pesquisadores investigaram os efeitos do tratamento probiótico por 12 semanas na área de gordura visceral (VFA) e fração de gordura
intra-hepática (IHF) em 65 participantes com obesidade e DHGNA em um ensaio clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo.

Ao final do tratamento, em comparação ao grupo placebo, maior perda de peso corporal foi observada no grupo experimental (diferença média: -1,35kg; p=0,0029), além de maior diminuição do percentual de gordura total (diferença média -0,9%; p=0,0032) e do grau de gordura visceral (diferença média: -1,12%; p=0,0029). O grupo probiótico também apresentou uma maior redução na concentração de triglicerídeos (diferença média: -34,0 mg/dl, p=0,0033) do que o grupo placebo.

Alterações no peso e na gordura corporal de acordo com o tratamento (adaptado de Ahn et al., 2019).

A redução da IHF foi significativamente maior no grupo intervenção (-40,0%) do que no grupo placebo (-17,1%). A significância estatística foi perdida após ajuste para alterações de peso corporal. Esses resultados sugerem que a redução da IHF se deu principalmente pela perda de peso, e há estudos que sugerem que a suplementação de probióticos pode ser benéfica em quadros de obesidade e síndrome metabólica.

Outra pesquisa verificou os efeitos da suplementação de simbiótico ou placebo a 52 pacientes com DHGNA por 28 semanas juntamente com orientações de mudanças de estilo de vida. Constatou-se que o grupo experimental, em comparação ao placebo, apresentou diminuição significativa (p<0,01) nos valores de alanina aminotransferase (ALT) (-26,2 vs. -7,29), AST (-31,33 vs. -7,94), GGT (-15,08 vs. -5,21), fator de necrose tumoral-α (TNF-α) (-1,4 vs. -0,8) e pontuação de fibrose determinada por elastografia transitória (-2,98 vs. -0,77).

A glicose sanguínea de jejum (FBS) e o índice HOMA-IR também reduziram em ambos os grupos, sendo a redução significativamente maior no grupo simbiótico do que no placebo. (FBS: até -7,96 vs. -2,82mg/dL; HOMA-IR: -0,68 vs. -0,39, respectivamente).

Ainda, no grupo simbiótico, 95% dos pacientes apresentaram alguma melhora na pontuação de fibrose, sendo que 36% e 56% tiveram reduções de 2 ou 3 níveis, respectivamente. Já no grupo placebo, apenas 36% dos participantes tiveram um ou mais níveis de redução. Não houve diferença significativa na perda de peso entre os grupos, sugerindo que a suplementação de simbiótico associada a mudanças de estilo de vida é superior a mudanças somente no estilo de vida para o tratamento da DGHNA.

Efeitos em crianças e adolescentes

Os efeitos da suplementação probiótica na DHGNA também já foram observados em crianças e adolescentes. Um ensaio clínico randomizado e triplo-cego foi feito com 64 crianças e adolescentes (com idade entre 10 e 18 anos) com obesidade e DHGNA que receberam probióticos ou placebo durante 12 semanas. Após a intervenção, no grupo experimental, os níveis médios de ALT diminuíram significativamente (de 32,8 para 23,1U/L; p=0,02), assim como os de AST (de 32,2 para 24,3U/L; p=0,02). Além disso, a ultrassonografia hepática normal foi observada em 53,1% e 16,5% dos pacientes no grupo intervenção e placebo, respectivamente.

Doença hepática alcoólica (DHA)

É sabido que o álcool desequilibra a composição da microbiota, o que aumenta a permeabilidade intestinal e leva a translocação de produtos da microbiota com mais facilidade para o fluxo linfático e para a circulação portal. No fígado, essas substâncias levam à inflamação e à morte celular.

Nesse sentido, um experimento averiguou as diferenças entre as microbiotas e explorou o potencial da suplementação de probióticos durante 7 dias para restaurar a flora intestinal e melhorar as enzimas hepáticas nos pacientes com doença hepática alcoólica (DHA) em comparação a indivíduos saudáveis. Os participantes com DHA foram divididos em terapia padrão e terapia padrão + suplementação de probióticos.

Em comparação aos controles não alcoolistas, os indivíduos alcoolistas apresentaram números significativamente reduzidos de bifidobactérias, lactobacilos e enterococos, além de maior número de E. coli. Após a suplementação probiótica, os indivíduos com DHA, comparados àqueles com terapia padrão, tinham significativamente mais bifidobactérias
e lactobacilos fecais.

Os pacientes tratados com probióticos tiveram atividade de AST e ALT significativamente menores no final do tratamento do que aqueles tratados apenas com terapia padrão (AST: 54,67 vs. 76,43U/L, ALT: 36,69 vs. 51,26U/L).

Análise pareada desses dados de ALT (adaptado de Kirpich et al., 2009).

Transplante hepático

O transplante hepático é um procedimento complexo que deixa o paciente bastante suscetível a infecções hospitalares e a sepse, que podem aumentar o tempo de internação e levar a desfechos desfavoráveis, como a perda do enxerto. Muitas dessas infecções podem ser originárias do intestino, de modo que a translocação bacteriana é um fator patogênico importante para seu desenvolvimento.

Por isso, algumas pesquisas investigaram o uso de pré e/ou probióticos no contexto do transplante hepático, e os resultados se mostram encorajadores. Um deles foi realizado com 66 receptores de fígado que receberam nutrição enteral imediatamente após a operação. No dia anterior à cirurgia e por mais 14 dias após, um grupo recebeu uma composição de 4 cepas de Lactobacillus e fibras e o outro recebeu apenas fibras. A incidência de infecções bacterianas pós-operatórias foi significativamente menor no grupo simbiótico em comparação ao grupo prebiótico (3% vs. 48%), e ambos mostraram prevenir infecções mais graves.

Outra pesquisa, realizada com 43 indivíduos com cirrose na fila para o transplante receberam tratamento contínuo com probióticos e tiveram seus desfechos pré e pós-cirúrgicos avaliados. Os pacientes do grupo probiótico, em comparação ao placebo, apresentaram taxas de infecção significativamente menores em 30 dias (4,8% vs. 34,8%; p=0,02) e em 90 dias (4,8% versus 47,8%; p=0,002), além de menor concentração de bilirrubina e redução mais rápida de AST e ALT (p<0,05). As diferenças entre as taxas de mortalidade pós-operatória em 90 dias não atingiram significância estatística (0% vs. 4,3%; p>0,99).

Transplante fecal

Pesquisadores realizaram um ensaio clínico aberto e randomizado com acompanhamento de 5 meses em 20 homens com cirrose e encefalopatia hepática (HE) recorrente. Um grupo recebeu pré-tratamento com antibióticos por 5 dias, seguido de transplante de microbiota fecal (FMT) em um enema único, enquanto o outro recebeu apenas o tratamento padrão (SOC) de lactulose e rifaximina.

Eventos adversos foram relatados em 80% do grupo SOC e 20% do grupo FMT. Ainda, 5 indivíduos do grupo SOC desenvolveram episódio de HE, em comparação a nenhum do grupo FMT (p=0,03). Benefícios na cognição também foram observados no grupo experimental, bem como aumento na diversidade e de táxons benéficos da microbiota e menor taxa de internação hospitalar por problemas hepáticos. Os pesquisadores concluíram que a modulação da microbiota pode ser uma estratégia no contexto da EH, possivelmente em virtude do eixo intestino-fígado-cérebro.

Suplementação

Além de probióticos e prebióticos, alguns outros nutrientes e suplementos podem ser benéficos para a saúde intestinal, como colágeno, glutamina, aminoácidos, micronutrientes, compostos bioativos e fitoterápicos.

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