Reganho de peso: como prevenir e tratar?

O reganho de peso (RP), definido como o ganho progressivo que ocorre após uma perda de peso bem-sucedida, é um dos principais desafios no manejo da obesidade. Independente do método utilizado para o emagrecimento, as pesquisas mostram que uma grande parcela dos indivíduos recupera parte do peso perdido após um tempo.

Os motivos são vários, e vão desde a diminuição da adesão ao tratamento até alterações hormonais e diminuição do gasto energético em repouso, além de questões psicológicas e de estilo de vida. Siga a leitura e entenda melhor a prevalência, os mecanismos e quais estratégias podem ser utilizadas para prevenir e manejar o reganho de peso.

Prevalência de reganho

Pós-bariátrica

Muitos estudos investigaram o RP em indivíduos pós-bariátricos. De acordo com uma metanálise, cerca de 49% dos pacientes apresentaram reganho de peso, e dados retrospectivos (n=353) mostraram que 56,7% dos indivíduos recuperaram no mínimo 20% do peso perdido após dez anos de cirurgia.

Uma grande coorte prospectiva (n=1406) com pacientes submetidos a bypass gástrico em Y de Roux (RYBG) observou reganho mediano de 9,5% do peso corporal perdido um ano após atingir o peso mínimo. Depois de três anos, o percentual triplicou (22,5%) e após 5 anos, 67,3% dos participantes recuperaram ≥20% da perda máxima de peso.

Intervenções comportamentais

O reganho de peso também é identificado pela literatura em pacientes que participaram de programas de emagrecimento e mudanças no estilo de vida. Algumas evidências mostram que cerca de 30-35% do peso perdido pode ser recuperado dentro de um ano após a intervenção comportamental.

Os resultados de uma metanálise (27 estudos; n=7236) mostraram que, por volta de 36 semanas após o término de uma intervenção, a variação de peso diminui e os sinais de reganho começam a surgir. Pode ser comum que os pacientes apresentem recuperação completa do peso perdido antes de um ano.

Análogos de GLP-1

Os estudos acerca do reganho de peso após o tratamento com análogos de GLP-1 ainda são escassos, mas já há evidências que apontam RP significativo em alguns casos. Uma metanálise recente (36 estudos) encontrou efeito rebote com semaglutida (5,15kg), exenatida (3,06kg) e com liraglutida (1,50kg) após o fim do tratamento com as medicações. A quantidade de peso recuperada associou-se positivamente com a magnitude da perda de peso induzida pelas substâncias, ou seja, quanto maior o peso perdido, maior o RP.

Dados do projeto SETP 1 (n=327), cujos participantes foram acompanhados por 120 semanas, das quais 68 foram sob tratamento com semaglutida, mostraram recuperação de 11,6% do peso corporal perdido, além da regressão de muitas das melhorias cardiometabólicas observadas durante o tratamento.

Mecanismos envolvidos

O papel dos hormônios

A restrição calórica severa ativa um sistema compensatório que tende a resistir à perda de peso e a defender um peso corporal mais elevado como estratégia de proteção do organismo. Perfis alterados de secreção de hormônios intestinais fazem parte desse sistema e contribuem para o RP.

Estudos indicam redução significativa em hormônios anorexígenos e aumento nos orexígenos. Indivíduos com obesidade grave que foram acompanhados por 62 semanas, sendo 10 delas sob uma dieta de muito baixa energia (VLED), relataram, ao fim do experimento, níveis aumentados de fome, desejo e impulso para comer, além de diminuição do peptídeo YY, colecistocinina (CCK), amilina, insulina e leptina. Por outro lado, houve aumento dos níveis de grelina. Mesmo com o retorno ao peso inicial pré-intervenção, as alterações hormonais persistiram.

*valor de p significativo (<0,05); **p=0,07 (Sumithran et al., 2011).

Leptina, peptídeo YY, CCK e a amilina atuam para reduzir a ingestão alimentar e aumentar o gasto energético, ao passo que a grelina estimula a fome e o armazenamento de energia. Os autores pontuaram que, em conjunto, os dados indicam que em pessoas com obesidade que perderam peso, múltiplos mecanismos compensatórios estimulam o RP, e eles persistem por pelo menos um ano, necessitando ser superados para que a perda de peso seja mantida.

Alguns desses hormônios são apontados por pesquisadores como biomarcadores para prever os resultados do tratamento para obesidade. Investigou-se o envolvimento da grelina, leptina e insulina no RP seis meses após uma dieta hipocalórica de 8 semanas. A dieta levou à diminuição nos níveis de leptina, principalmente nos indivíduos que perderam >5% do peso.

Um resultado interessante foi o de que níveis mais altos de leptina e mais baixos de grelina antes da intervenção foram preditores de RP (>10%) seis meses após o fim do tratamento. Esses dados ilustram o que se define como resistência à leptina na obesidade, na qual níveis altos do hormônio não induzem à supressão do apetite devido à interrupção na sensibilidade ao mesmo – pode-se fazer uma analogia ao que acontece na resistência à insulina, por exemplo.

Os autores ressaltam que indivíduos com obesidade que recuperam mais peso parecem apresentar uma resposta central diferente à sinalização de leptina e grelina do que aqueles que mantêm o peso corporal, e que os níveis dessas substâncias antes e depois de dietas hipocalóricas podem auxiliar na detecção e potenciais reganhadores.

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Ainda nesse sentido, um pequeno estudo com mulheres demonstrou que o RP era mais provável naquelas com níveis basais mais baixos de GLP-1 e com maiores reduções nos seus níveis após a perda de peso. Essas alterações hormonais ajudam a explicar o aumento do apetite e consequentemente da ingestão alimentar, limitando a perda ou levando ao RP.

Redução do gasto energético

O gasto energético em repouso (GER) diminui com a perda de peso, pois uma menor massa corporal necessita de menos energia. Entretanto, geralmente essa redução é maior do que o esperado de acordo com as alterações na composição corporal.

Essa diferença entre o gasto energético observado e o previsto após a perda de peso é chamada de adaptação metabólica (AM). O organismo enxerga a perda de peso como uma ameaça à sobrevivência e, por isso, diminui o gasto energético.

Pesquisadores reavaliaram a composição corporal e o GER em participantes da competição “The Biggest Loser” (“O Grande Perdedor”, no Brasil) seis anos após a perda de peso. A perda de peso ao final da competição foi de ~58,3kg e o GER diminuiu em ~610kcal/dia. Após seis anos, ~41,0kg do peso perdido foram recuperados, enquanto o GER ainda permanecia ~704kcal/dia abaixo da linha de base, com uma AM de ~499kcal/dia, sugerindo que ela pode persistir ao longo do tempo e ao RP.

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Alterações individuais (●) e médias (retângulos cinza) na taxa metabólica basal (A) e na adaptação metabólica (B) ao final da competição de perda de peso de 30 semanas do programa “The Biggest Loser” e após 6 anos. As barras horizontais e os respectivos valores de p indicam comparações entre 30 semanas e 6 anos. *indica p<0,001 em comparação com o valor basal (Fothergill et all., 2016).

Apesar de não haver correlação significativa entre a adaptação metabólica ao final da competição de 30 semanas e o ganho de peso aos seis anos, observou-se que aqueles com maior perda de peso aos seis anos continuaram a apresentar maior desaceleração metabólica. Portanto, os pesquisadores ressaltam que a longo prazo é necessário um combate vigilante à AM para evitar o RP excessivo.

No cenário pós-bariátrico, ocorre uma redução média na TMB de 356,66kcal/dia após 6 meses de RYBG, de acordo com uma metanálise (8 estudos; n=434). Após um ano, a redução observada foi de 432,89kcal/dia, indicando que a adaptação metabólica se mantém por pelo menos doze meses após a intervenção.

A queda no gasto energético após a perda de peso teria pouca consequência clínica se a ingestão energética fosse reduzida proporcionalmente. No entanto, manter um peso corporal reduzido está associado à diminuição da saciedade e ao aumento da fome, especialmente pela diminuição da leptina, criando o cenário ideal para promover o RP.

Sistema de recompensa

Além dos sistemas de fome e saciedade, o sistema de recompensa (SR) e o controle cognitivo também participam da regulação do apetite, do desejo por comida e da antecipação do prazer de comer. Esse sistema pode se sobrepor aos sinais de saciedade, comprometendo a capacidade de controlar o comer excessivo.

Pesquisadores propõem que o consumo excessivo de alimentos palatáveis desencadeia respostas neuroadaptativas nos circuitos de recompensa do cérebro, impulsionando hábitos alimentares compulsivos. A ingestão persistente também poderia ser desencadeada por respostas de recompensa diminuídas na obesidade, ou seja, uma quantidade cada vez maior de comida é necessária para que a sensação de prazer (recompensa) ocorra. Parece haver uma hiperresponsividade e hipersensibilização nesses circuitos e essas alterações podem ser mantidas em alguns indivíduos, mesmo com a perda de peso.

Pesquisas mostram que em indivíduos com obesidade submetidos a tarefas relacionadas à comida, há uma comunicação mais fraca nas áreas cerebrais envolvidas no autocontrole, avaliação da recompensa, atenção e percepção interna do corpo.

Um estudo feito com mulheres comparou as respostas cerebrais e hormonais a estímulos alimentares durante a fome e saciedade em dois grupos: um que manteve a perda de peso seis meses após intervenção dietética e outro que teve RP. Foi verificado que as “mantedoras” apresentaram diminuição da reatividade cerebral à recompensa alimentar quando já estavam saciadas. Entretanto, naquelas com RP, não houve diferença na reatividade durante os estados de fome ou saciedade, ou seja, a comida continuava igualmente atrativa, mesmo na ausência de fome física.

Esses resultados endossam que, mesmo na perda de peso, as perturbações no sistema de recompensa podem se manter em algumas pessoas, contribuindo para o RP.

Abandono do tratamento

A adesão a longo prazo do tratamento para a perda de peso é um dos maiores desafios, principalmente no que tange à mudança de hábitos alimentares e prática de atividade física. É comum que os pacientes diminuam a adesão ao plano alimentar e ao exercício após atingirem a perda de peso desejada. Isso, aliado às alterações hormonais e à adaptação metabólica explicadas anteriormente, aumentam substancialmente as chances de reganho.

De acordo com a literatura, as principais barreiras para a manutenção do peso são:

  • Restrição calórica excessiva: dietas pouco flexíveis, incompatíveis com a vida real a longo prazo e que não consideram o ambiente e a realidade do paciente;
  • Fatores emocionais: estresse, fome emocional e ansiedade;
  • Cansaço de seguir uma dieta: protocolos que exigem pesagem de alimentos, planejamento minucioso das refeições, registros detalhados de consumo alimentar;
  • Desmotivação com o platô: estagnação do peso, comum após um período de perda rápida e intensa;
  • Falta de informação: desconhecimento sobre as adaptações metabólicas da perda de peso e o esforço que é necessário para o sucesso da manutenção do peso;
  • Hiato de acompanhamento e orientações: diminuição da frequência de consultas e acompanhamento nutricional e baixa orientação acerca de como fazer escolhas saudáveis e sustentáveis de longo prazo.
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Quando ocorre a redução do peso corporal, a secreção de hormônios orexígenos no trato gastrointestinal tende a aumentar, enquanto a produção de hormônios anorexígenos diminui. A perda de massa gorda é sinalizada pela redução dos níveis de leptina. Os efeitos combinados desses sinais periféricos, no nível dos neurônios hipotalâmicos que controlam o peso e o balanço energético, causam um aumento da fome e uma diminuição do gasto energético, criando um substrato mais favorável para a ação dos mecanismos centrais ligados ao prazer e à recompensa proporcionados pelos alimentos (Busetto et al., 2021).

Estratégias de manejo

A fim de prevenir e/ou controlar o reganho de peso, estudos apontam algumas intervenções promissoras:

Reabordagem cirúrgica

A revisão da cirurgia bariátrica é indicada para tratar algumas complicações, mas também pode ser uma alternativa para o reganho. Os métodos cirúrgicos mais utilizados são o RYGB e o bypass duodenoileal de anastomose única (SADI), que aumentam ou levam à má absorção, resultando em perda de peso.

Informações de um banco de dados dos Estados Unidos e Canadá mostram que entre 2020 e 2021, ocorreram 13.432 cirurgias revisionais de gastrectomia vertical (GV) para RYGB, e o reganho de peso era a principal indicação de 24,4% delas.

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Com relação ao tipo de cirurgia, uma pesquisa investigou a eficácia do SADI versus o RYGB nos resultados de saúde de pacientes com obesidade mórbida que foram submetidos à GV anteriormente, com até 2 anos de acompanhamento. Ambos se mostraram efetivos na perda de peso:

  • SADI: perda de peso de 16,5%, 21,5% e 26,4% aos 6, 12 e 24 meses, respectivamente;
  • RYGB: perda de peso de 7,8%, 8,9% e 6,9% aos 6, 12 e 24 meses, respectivamente.

Foi observado que a SADI alcançou perda de peso corporal total 8,7%, 12,4% e 19,4% maior em 6, 12 e 24 meses, respectivamente, em comparação ao RYGB, com taxas de complicações e queixas semelhantes entre os métodos. Uma revisão sistemática destacou que, após 5 anos, ambos os procedimentos são comparáveis em perda de peso, deficiências nutricionais e resolução de comorbidades.

Terapia medicamentosa

Medicamentos antiobesidade têm sido utilizados para interromper ou reverter o RP pós-bariátrico ou após várias intervenções dietéticas sem sucesso. Estudos retrospectivos mostram resultados promissores com semaglutida e liraglutida em indivíduos com RP ou perda de peso insuficiente após a cirurgia.

Uma metanálise de 2025 (10 estudos; n=769, 392 tratados com agonistas do receptor de GLP-1) avaliou o papel dessas medicações no tratamento e prevenção da retenção de peso após cirurgia bariátrica. O intervalo de tempo entre a cirurgia e o início do tratamento com GLP-1-RA variou de 1,5 a 86,7 meses, com duração entre 4 e 12 meses. Houve perda de peso significativamente maior no grupo tratado com as medicações em comparação ao placebo (diferença média padrão (DMP): 0,82; IC95%: 0,23-1,42) e as análises de subgrupo mostraram que uma duração <6 meses indicou maior perda de peso.

O uso de medicação contínua para prevenir o RP foi sugerido por um estudo com dados do ensaio clínico randomizado SURMOUNT-4. Após o tratamento por 36 semanas com tirzepatida, 89,5% daqueles que continuaram a receber a medicação (totalizando 88 semanas de tratamento) mantiveram pelo menos 80% da perda de peso corporal em comparação a 16,5% no grupo que interrompeu o uso após 36 semanas (p<0,001).

Altos índices de perda de peso insuficiente ou de RP são observados com banda gástrica ajustável. Nesse cenário, o orlistate (360mg/dia durante 8 meses) foi efetivo na perda de peso em comparação à não utilização do fármaco (-8kg versus -3kg; p<0,01). Topiramato (12,5 a 50mg/dia durante 3 meses) também aumentou a perda de peso média em pacientes com banda gástrica ajustável e episódios de compulsão alimentar com perda de peso abaixo do esperado.

Intervenções comportamentais

Os pilares mais importantes durante a perda e a manutenção do peso são a saúde mental e o estilo de vida. Para obter sucesso no tratamento da obesidade, é importante identificar e tratar transtornos neuropsiquiátricos e comportamentos alimentares disfuncionais, gerenciar o estresse e estimular a adoção de um estilo de vida saudável e equilibrado, com prática regular de atividade física, alimentação adequada e uma boa relação com a comida.

Cuidado com a saúde mental

O maior sucesso na manutenção da perda de peso foi obtido por indivíduos que apresentaram melhores índices de saúde mental funcional e percebida – avaliados logo após a conclusão de um programa de perda de peso. A associação foi encontrada nos primeiros meses de manutenção (12 meses – período em que ocorre a maior parte do RP) e também aos 30 meses.

Por outro lado, uma análise transversal com 217 pacientes pós-bariátricos mostrou associação positiva entre transtorno da compulsão alimentar periódica, depressão e ansiedade e RP. A ausência de diagnóstico psiquiátrico no período pré-operatório apresentou associação positiva com a perda de peso pós-operatória, ressaltando a importância do rastreamento psicológico dos pacientes antes de iniciarem os tratamentos para obesidade, além do acompanhamento durante e após a sua conclusão.

Gerenciamento do estresse

A relação entre estresse crônico, ganho de peso e obesidade já é bem conhecida. A hiperativação do eixo HPA, que leva ao aumento dos níveis de cortisol, é um dos estímulos para a maior ingestão de alimentos, especialmente daqueles ricos em gordura e açúcar, além de diminuir a produção de leptina e estimular a liberação de grelina, interferindo nos sinais de fome e saciedade.

Altos níveis de estresse também podem influenciar na alimentação emocional, uma vez que os indivíduos estressados recorrem à comida para conseguir conforto – comportamento reforçado pela liberação de dopamina. A ingestão excessiva de alimentos hipercalóricos retroalimenta o estresse, gerando um ciclo vicioso.

De fato, a adesão a um programa de controle do estresse (respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo, visualização guiada e instruções sobre hábitos alimentares saudáveis) durante oito semanas proporcionou maior perda de peso em adultos com obesidade (ΔIMC: -3,1, grupo controle: -1,74kg/m²; p < 0,001), além de redução nos níveis de estresse percebido.

Mindfulness

Ainda no contexto do estresse, a técnica mindfulness também se mostrou eficaz em estudos clínicos. Indivíduos que haviam perdido peso foram randomizados para receber a Redução do Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR) ou Curso de Vida Saudável (HLC) no contexto da manutenção do peso durante oito semanas. Após o fim da intervenção, o grupo MBSR manteve o peso corporal, enquanto o HLC teve um aumento de 3,2% no IMC.

Os pesquisadores pontuaram que o treinamento de mindfulness levou a mudanças na conectividade entre o córtex pré-frontal medial e a amígdala, criticamente implicada na regulação da emoção, o que pode contribuir para prevenir o RP.

Nesse sentido, uma metanálise analisou 27 estudos e encontrou que o mindfulness resulta em melhorias significativas no controle alimentar, na percepção da saciedade, na alimentação externa, na fome, na ingestão de energia e doces e nas escolhas alimentares impulsivas.

Atividade física

Além de imprescindível para a perda de peso e para a saúde de maneira geral, a adoção de uma rotina de exercício também é aliada à prevenção e ao manejo do RP. Dados do estudo Look Ahead mostraram que os voluntários que mantiveram a perda de >10% de peso no oitavo ano tinham alta frequência de prática de atividade física em comparação com aqueles que recuperaram o peso acima do nível inicial.

Seis anos após a competição “The Biggest Loser”, os participantes que mantiveram uma perda de peso maior tiveram um aumento na atividade física de 160% em comparação a 35% daqueles que recuperaram peso.

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(A) As alterações individuais na ingestão absoluta de atividade física, desde o período pré-competição até seis anos após a competição Biggest Loser, apresentaram correlação significativa com a perda de peso seis anos após a competição; (B) As alterações na atividade física apresentaram relação inversa significativa com o peso recuperado. (Kerns et al., 2017).

Um estudo que avaliou a trajetória de perda de peso, atividade física e estilo alimentar de indivíduos após 5 anos de cirurgia bariátrica encontrou que aqueles que tinham uma trajetória de perda de peso mais favorável apresentaram maior probabilidade de também seguir trajetórias de atividade física mais favoráveis.

O American College of Sports Medicine recomenda 150 minutos ou mais de atividade física de intensidade moderada semanalmente com o intuito de limitar o ganho de peso. Ainda, a prática por 150-250 minutos semanais se mostra suficiente para prevenir ganho de peso maior que 3% na maioria dos adultos.

Alimentação equilibrada

O acompanhamento nutricional é elencado por muitas pesquisas como fator determinante da manutenção do peso. Em indivíduos pós-bariátricos (~47 meses), maior qualidade da dieta, medida pelo índice de alimentação saudável, foi protetora contra o RP em um estudo brasileiro retrospectivo.

Um ensaio clínico randomizado avaliou a associação entre a adesão à dieta e a perda de peso, medidas a cada sessão durante a fase de perda de peso. Após onze semanas de perda de peso, os reganhadores (não mantiveram uma perda ≥10% após 6 meses) passaram a apresentar menor adesão à dieta e redução na taxa de perda de peso em comparação aos mantedores, e a adesão à dieta previu a manutenção do peso perdido.

A manutenção de uma dieta saudável também evitou o RP após o fim da perda de peso em pacientes com sobrepeso/obesidade e esteato-hepatite não alcoólica. Após 26 semanas de tratamento com liraglutida (LR) ou apenas intervenção no estilo de vida (ID), o grupo LR recuperou significativamente o peso (1,8 ±2,1kg) e a fração de gordura hepática (4,0 ±5,3%), o que não ocorreu no grupo ID, que recebeu intervenção no estilo de vida de forma contínua.

De acordo com uma revisão sistemática, maior ingestão de fibras, ácidos graxos monoinsaturados, carboidratos de baixo índice glicêmico e proteínas resulta em menor RP. Ainda, uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais, alimentos proteicos e boas fontes de gordura pode ser útil na manutenção do peso.

Já com relação à composição de macronutrientes, não há consenso sobre qual padrão alimentar é mais efetivo a longo prazo. Dieta mediterrânea, cetogênica, hiperproteica, low carb e jejum intermitente mostram benefícios no peso corporal a curto e médio prazo, mas não parece haver uma dieta superior na manutenção a longo prazo ou na prevenção do RP.

Assim, deve-se priorizar uma dieta adequada em macro e micronutrientes, rica em frutas, vegetais, cereais integrais e boas fontes de proteína e de gorduras, com quantidades e composições individualizadas.

Relação com a comida

Manter um bom relacionamento com os alimentos é um ponto-chave para a manutenção do peso, pois tem associação com hábitos sustentáveis a longo prazo, flexibilidade cognitiva e mudança de pensamento sobre dieta, comida e nutrição.

A ciência pontua que a restrição alimentar geralmente ocorre de forma flexível ou rígida, sendo essa última acompanhada pelo pensamento dicotômico do “tudo ou nada”, forte preditor de retenção de peso, pois pode desencadear episódios de compulsão alimentar. Na prática, o pensamento dicotômico divide os alimentos em “bons e ruins” e “permitidos e proibidos”, gerando maior desejo e culpa ao consumir aquilo que é considerado “não saudável”.

Há décadas pesquisas associam esse tipo de pensamento a maior dificuldade em manter a perda de peso. A ideia de que a dieta precisa ser “perfeita” impulsiona o abandono temporário ou definitivo, o que contribui para o RP. O pensamento dicotômico, combinado com a falta de apoio adequado durante a intervenção dietética, pode afetar negativamente o controle de peso a longo prazo. Estratégias como terapia cognitivo-comportamental (TCC) ou reestruturação cognitiva se mostram eficientes para flexibilizar esses padrões alimentares disfuncionais.

Já a restrição flexível é uma abordagem que permite o consumo limitado de alimentos hipercalóricos ao invés de excluí-los totalmente da alimentação. Esse método está associado a uma maior probabilidade de perda e manutenção do peso, bem-estar psicológico e redução do sofrimento de acordo com estudos.

Aprimorar a percepção dos sinais de fome e saciedade também é importante para se ter maior consciência ao comer, trazendo o foco no prazer da comida, além da desconstrução de noções rígidas de alimentos permitidos ou proibidos para estabilizar as emoções e diminuir as chances de episódios compulsivos.

Por fim, sabendo das características crônica e recidivante da obesidade, pesquisadores hipotetizam que, considerando as semelhanças ceerebrais entre indivíduos que mantêm o peso e os obesos e aqueles com peso adequado, pessoas com histórico de obesidade, mesmo com IMC eutrófico, não deveriam ser tratadas como eutróficos, mas sim como ex-obesos ou indivíduos que reduziram o peso, necessitando de vigilância, monitoramento e acompanhamento contínuos.

IMPORTANTE

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